Sentado na calçada de casa, os olhos do menino contemplavam, encantados, os jumentos que passavam com as pesadas ancoretas de madeira dependurada uma de cada lado dos corpos dos animais, cheias de água.
O desfile dos jumentos começava muito cedo, de madrugada, e continuava manhã adentro. A beleza do som do trote dos cascos nos paralelepípedos da ruazinha que dava para o olho d’água do Bananeira só encontrava rival no canto dos galos. Aliás, ambos os sons começavam a um só tempo, pois que galos, jumentos e homens acordavam nas primeiras horas das gélidas madrugadas de cruviana da cidadezinha de Pedro II.
Ao meio dia, os pobres animais passavam mais lerdos na volta, pois agora traziam o líquido precioso que todos bebiam e usavam na higiene pessoal, além de lavar utensílios e roupas, aguar plantas. Enfim, tocar a vida.
As cargas d’água tinham quase sempre como destino os potes enfileirados nas bilheiras das famílias mais abastadas. Já os caminhos d’água, estes trazidos por homens, consistiam numa espécie de cambito feito com galho de certas árvores, apoiado horizontalmente na nuca e com as latas (reaproveitadas geralmente do querosene Jacaré) dependuradas por cordas, a hum palmo do chão.
Um dos principais botadores de água era seu Chico Farofa. Baixinho, mirradinho, vozinha fanhosa, titelinha aparecendo por entre a camisa aberta, desdentado, olhinhos miúdos, mas espoletados.
Seu Chico Farofa botava água do nascer do dia ao pôr do sol. Era o botador d’água oficial de muita gente. Tá acabando a água? Chama o Chico Farofa! Mas havia muitos outros: seu Chicó e seu filho Chicozinho, Barbosa e seu Irmão Cara de Mercedes, Chico da Doca, Bento, Filho do seu Capistrano e muito mais.
O cambo de seu Chico Farofa era bem curvo e muito liso, pois, segundo ele, tinha para mais de vinte anos de uso. E como é o cachimbo que entorta a boca do pitador, os botadores de água desenvolviam, dentre outras coisas, um andar inusitado, uma espécie de marcha militar, que era a maneira que inventavam para não derramar muita água entre a coleta e o despejo nos potes de barro das casas dos consumidores. Quase todos os botadores colocavam pequenos galhos de árvore dentro das latas para diminuir as chances de perderam o líquido durante o trajeto.
Pois era em meio a essa massa de homens e animais, no meio da poeira que levantava o polme, na confusão de risos, desaforos gritados ao vento, barulho de patas nas pedras rudes, esturros. Era em meio também às fezes e urinas já visitadas pelas varejeiras que mais se pareciam a helicópteros, ali mesmo na altura do afamado Bar do Clube que aquela figura esquelética, andando (bamboleando!) nas pontas dos pés, os braços longe do tronco, como a nadarem num mar invisível; a calça pega-marrecas atada à cintura por uma embira encardida, a camisa surrada, aberta em todos os botões (quando, então, podiam-se contar as costelas).
Os movimentos do homem eram, a princípio, velozes. Mas aí iam ficando cada vez mais lentos, quase parando. Um homem-preguiça. Enfim, esse homem tinha profissão e nome. Era o melhor funileiro da cidade. Seu nome: Pedro de Sousa. Mas todos o conheciam como Pedro Sabiá. [continua...].
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Ilustrações: J Batista, Jackson Cristiano e Gilsiê Memória
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ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor, dentre outros livros, de “Lendas de Pedro II”. Escreve aos sábados para o Portal P2.