Cultura Coluna do Ernâni
A Feira do Tamboril
ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É autor de inúmeros livros, dentre eles “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. É membro da APLA, ALVAL, UBE-PI e do IHGPI.
09/05/2026 08h11
Por: Gustavo Mesquita

 

(Parte I)

(Por Ernâni Getirana)

Houve um tempo sem tempo uma vez que por aqui, em Pedro II, havia um grande Tamboril. A enorme árvore necessitava de mais de sete homens para abarcar seu tronco caraquento.

Suas raízes eram também enormes crianças, largando as mãos das mães, corriam para passar por debaixo delas.

Montavam nas raízes, fazendo delas cavalinhos. E a sombra? Era enorme. Dava para mais de uma quadra de futebol de salão.

E quem era mesmo que estava por lá por ali, debaixo do pé de Tamboril ganhando a vida nesse mundo duro de meu Deus?

Creuza do Zacarias, Luiza Jacinto, Maria Acelino, Maria do Ruy, Raimunda Baixinha. Todas elas em torno de suas grossas mesas de madeira vendendo galinha assada, galinha cozinha, arroz, feijão, bolo cru, bolo doce, bolo de roda, cariri.

Os quiosques de Chico Lagoa, Miguel Rodrigues.

As bares de Luís e Cícero do Libero, Zé do Doce e Chico Mel Quente, e de seu Muru.

As quitandas de Antonio Paixão e seu Jorge da Milagre.

Os sapatos do povo rico eram engraxados por seu Raimundão

Mas havia também as redeiras, famílias inteiras delas: avó, mãe e filhas. E até netas havia.

Vendedoras de rede, dona Maria da Formiga vendendo seus potes floridos para o povo pôr água do Pirapora ou do Bananeira para matar a sede e quem trazia os caminho d’água eram os botadores de água: seu Chicó, Chicozinho, Chico Farofa, Barbosa, Chico da Doca, Cara de Mercedes.

As lojas de seu Jonas, Antonino Martins, Garapeira do seu Mundote, o comércio de seu Antonio Cosme, a moageira de seu Diolindo Sales, a peladeira de arroz de seu Barroso.

Mas havia também o mais famoso cordelista de todos, Chico dos Romances, com sua lona estirada no chão presa com pedrinhas para não ser levada pelo vento forte que vinha vindo do Morro do Gritador.

Seu Chico escrevia os cordéis e os punha à venda ao povo, que os comprava com fome de histórias.   

Ao redor das histórias do poeta piripiriense rondavam os lunáticos: Totinha, Zé Doido, Pituíba, Oliveira zanzavam pela feira tomando a benção, querendo trocar limões por latas de leite em pó vazias, pedindo bitucas de cigarro gaivota, pedindo um prato de comida.

Para além do chão empoeirado da feira, uma poeira fina na qual o polme se misturava às fezes e urinas dos cães.

Os bêbados, irremediáveis, emborcavam as doses de cachaça para dentro do bucho nos quiosques de Chico Lagoa e, sobretudo, no Bar de Chico Mel Quente.

Aliás, era naquele bar do Chico Mel Quente e do Zé do Doce onde as mulheres de vida fácil davam para aparecer, encharcadas de batom e creme de pele no ponto de depenar os homens casados, que bebiam e jogavam cartas e bilhar.

As outras, casadas, que tratassem de segurar os maridos.

E, assim, a Feira do Tamboril, aos sábados, seguia.

A feira do Tamboril nascia antes das madrugadas friorentas da cidade de Pedro II, Terra do Imperador.

Alcançava o pingo do meio dia, sol a pino, a feira bem mais calma, quase todos iam almoçar. 

 Os bêbados escornados no chão dormindo o sonho dos anjos, lambidos pelos cães.

Nessa hora era quando a sombra se apoderava mais amplamente do chão areioso, formando quase um grande círculo perfeito.

Quem tinha vendido tudo o que trouxera, já voltava no caminho de casa. Quem não tinha vendido muito era hora de baixar o preço das mercadorias.

Os jogadores perdedores no baralho, no bilhar, de bolsos vazios também voltavam para casa.

Os ganhadores, de bolsos cheios, aproveitavam e pagavam cerveja para as moças alegres e depois saíam com elas para perder tudinho.

Já mais para a boca da noite o velho tamboril igualmente cansado, como o povo trabalhador, como os surrões de farinha, de goma, de feijão e de milho.

Os últimos raios de sol beijinho a parte da copa mais alta do velho tamboril, ficando sozinho, já recebendo o abraço amigo da brisa do Gritador.

Logo mais a cidadezinha mergulharia na escuridão da Véia Ofrásia e, então, era chegada a hora de as visagens do cemitério virem dançar ao redor da dantesca árvore: os chora-chora do Tamboril.

Mas isso já é outra história...

 

(Pedro II, maio de 2026)

*Tela de J. Batista (A Feira do Tamboril).

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor de “Lendas de Pedro II”, dentre outros livros. Está lançando no 4º SALIKP2 seu mais recente livro: “Morro do Griador, filho da Ibiapaba: brisa, cruviana & terremotos”, que está à venda, juntamente com os livros de outros autores e autoras no Stand da APLA-Academina Pedro-segundense de Letras e Artes. Escreve ao sábados para o Portal P2.