Sábado, 23 de Maio de 2026
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Cultura Coluna do Ernâni

A ladeira do Pirapora

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É autor de inúmeros livros, dentre eles “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. É membro da APLA, ALVAL, UBE-PI e do IHGPI.

23/05/2026 às 09h56
Por: Gustavo Mesquita
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A ladeira do Pirapora

 

Houve um tempo em Matões que todo menino tomava banho no olho d’água do Pirapora. O acesso ao olho d’água por uma única via: a famosa ladeira do Pirapora. Dessa ladeira conhecíamos tudo. Cada pedra, cada fenda, cada pé de cansanção, cada folha de malícia-teu-pai-morreu, berdoégua, mato-a-parte.

 

Os calangos nos cumprimentavam balançando a cabeça. Os pássaros emitindo seus pios. Alguns desses pius eram os últimos dados, pois os passarinhos eram alvejados por pedras disparadas de baladeiras. Eu mesmo era um dos que nunca fiz uso desse brinquedo contra passarinho, mas fiz muito contra latas de leite Ninho vazias lá no quintal de casa.

 

A ladeira do Pirapora era perigosa e deixava nossas mães com a pulga atrás da orelha. Vai que um pé escorrega no lodo, ou se mete numa loca, ou, ainda, um jumento desembestado bate com as ancoretas em tua cabeça, menino danado.

 

Já se esqueceu do coitado do filho do Pedra de Sal? Aquele que caiu de cima do jumento outro diinha desses nem precisou ser socorrido por seu Pedro Enfermeiro! Tia Zezé disse isso para mim e para meu primo, Ricardo, mais para meter medo na gente do que propriamente retratar o acontecido.

O tal menino, montado no jumento, entre as duas ancoretas com água, tinha tentado segurar uma banana que escapulira de suas mãos. Deu um jeito no corpo e com a cabeça num bico de pedra que ficou vermelha na olha, de tanto sangue.

 

Pronto, foi um deus-nos-acuda. Que Nossa Senhora da Conceição livre vocês do mal agouro, meus filhos, de uma queda na ladeira do Pirapora.

 

Apesar do alarido que as mães faziam sobre a ladeira e, talvez, por isso mesmo, ela se tornava um desafio constante para os meninos de Matões.

 

Uma das primeiras pessoa que a gente avistava logo no início da descida da ladeira era mestre Zazá, um homem moreno, cabelo liso, com um sorriso no rosto logo de manhãzinha. E olhe que a partir das quatro da madrugada ele e muitos outros já estavam subindo e descendo

 

(Trecho do meu livro "Dez anos do festival de Inverno de Pedro II e outras histórias)

Fotos: Ladeira do Pirapora (acervo do Prof. Afonso Getirana), livros: (do autor).

 

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É autor de livros, dentre eles: “Lendas de Pedro II”, “Dez anos do FIP2...” e acaba de lançar “Morro do Gritador, filho da Ibiapaba: brisa, cruviana & terremotos”. Escreve para o Portal P2 aos sábados.

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Cultura com Profº Ernâni Getirana
Cultura com Profº Ernâni Getirana
Sobre Ernâni Getirana, professor, lecionou na UESPI e Faculdade Santo Agostinho, aposentado na Rede Estadual de Educação, Ecoescola Thomas a Kemps. Ainda na ativa na Rede Municipal de Educação de Pedro II. Formado em Letras pela UFPI, graduado em Meio Ambiente pela UnB, graduado em Educação pela UFRJ, mestre em Políticas Públicas pela UFPI. Membro das academias: Vale do Longá e Pedrossegundense de Letras e Artes. É poeta e escritor, autor de vários livros, dentre eles “Lendas da Cidade de Pedro II”.
Atualizado às 21h00 - Fonte: ClimaTempo
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