
(Ernâni Getirana)
Todos nós que aqui estamos
Feitos galhos, vimos de algum tronco com muitas raízes
Nosso modo de ver e de sentir
Nosso modo de pensar e de agir
Nosso modo de ficar ou de partir
Tudo isso e muito mais que isso
Está conectado com nossa ancestralidade
Os ancestrais são aqueles e aquelas
Que vieram antes de nós e, assim, prepararam nossa vinda
Nossos pais, tios, tias e avós
Mas também muitos outros e outras bem para trás
Num tempo em que nem liberdade tinham
E por isso foram aprisionados, acorrentados em porões de navios
E arrancados de sua terra natal, tiveram que aprender novas línguas, sabores e cheiros
Novas formas de ser e de estar no mundo e de se proteger
Sem, porém, esquecer e renegar sua cultura, suas crenças e sua religião
Ancestrais são também aqueles que mesmo estando aqui desde o início
Tiveram suas terras espoliadas, solapadas pela ganância dos civilizados
E escravizados foram também em suas próprias casas
Na terra de pindorama, ‘terra de palmeiras’,
Que era o nome que o Brasil tinha antes de se chamar Brasil
E apesar de tudo e de todos, aqui estamos,
Entre atabaques e chocalhos, entre miçangas, tranças e cachos,
Entre maracás e tambores, entre vivências e amores
E apesar dos pesares, aqui chegamos de pé e tenazes, de mãos dadas e caminhando
Com nossas memórias e histórias, com nossos corpos negros com suas cicatrizes
Com narizes e bocas e cabelos
Olhos e ouvidos e alma bem abertos e alertas
Com nossos penachos coloridos e vendo e ouvindo a natureza
E o que ela tem a nos dizer em sua sabedoria através das eras
Inscritas na pela do planeta
Nossas danças, nossas rezas, nossos instrumentos, nossas vestimentas
Nos fazem únicos e belamente humanos
Guerreiros e guerreiras da paz, mas sem pestanejar
Companheiros dos ecossistemas, dos temas do viver e da fé, da vida, das pessoas,
Em cujo peito ressoa a luta por justiça
Que atiçam o arco, a flecha, o maracá, o atabaque nos embates
Que seja assim, que assim seja o tempo do encontro e da conversa
Em pé de igualdade nas idades do planeta
De nós com os outros
Dos outros conosco
E de todos nós com a paz que se preza
Em cada passo do caminho que já se constrói no hoje, sem pressa
(*) A Feira de Pedro II (pintura de J. Batista)
ERNÂNI GETIRANA (ERNANIGETIRANA12@GMAIL.COM) é professor, poeta e escritor. Autor de livros, dentre eles “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. Pertence às academias ALVAL e APLA. É membro do IHGPI (Instituto Histórico e Geográfico do Piauí) e do Coletivo P2, do qual é sócio fundador. Escreve aos sábados para esta coluna.
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