
Cinco da tarde. Levante da bandeira na casa de seu Mariano, ali na segunda metade da rampa da Água Boa, Avenida Coronel Cordeiro, muita gente. Isso Pedro Sabiá chegou com dona Puruga a tiracolo. Ele estava elegante naquela calça Far West presenteada por Mr. Freak Lee enfiada nas botas de cano longo, presente de Dr. Nilson Lacerda e camisa de volta ao mundo, que ele mesmo comprara na loja de seu Jonas Mourão.
Os diabos das botas agora depois da caminhada desde as Areias Brancas até à casa de mestre Mariano na certa que tinham inchado seus pés. Por que que eu não botei milho molhado dentro destas desgraças, meu Deus do Céu? E agora, pela segunda vez calço botas e as diabos me fazem esse afronte.
Mas de qualquer maneira havia chegado o dia o Levante da Bandeira e Pedro Sabiá todo perfilado ali com a mulher. Havia até tomado um banho mais demorado de mais de meia hora e com sabão mulatinho comprado na venda de seu Antônio Rodrigues e embrulhado num pedaço de papel de jornal com a cara do governador que era para, quem sabe, sua excelência criar vergonha na cara.
Não costumava se banhar daquele jeito, mas para o Levante da Bandeira ele fazia qualquer esforço e com gosto. Ia inaugurar a calça, como, de fato, já estava nela vestido.
Quando padre Mário chegou com o Apostolado da Oração e começou a rezar e toda aquela gente a responder o vigário que falava por um megafone segurado por uma das mãos, dona Puruga mais que depressa tirou o terço do pescoço e começou a debulhá-lo numa chiadeira entre os lábios que Pedro Sabiá até fez careta.
Sindô, que esteve o tempo todo observando Pedro Sabiá desde que este havia chegado ali com a mulher a tiracolo, se aproximou do ferreiro e ofereceu-lhe um pedaço de rosca das muitas que seu Mariano mandara fazer para distribuir para o povo com uma xícara de café.
A intenção de Pedro Sabiá foi de brigar com o menino pelo gesto infantil. Mas não, colou os dedos polegar e indicador um de cada lado do pedaço de bolo e logo o levou à boca. Sindô sorriu porque achou engraçado os movimentos que o bigodinho do homem fazia enquanto devorava o bolo.
Depois os três acompanharam em compasso a procissão que já começava a subir a ladeira do campestre. A amizade entre o menino e o funileiro vinha do fato de ambos se verem com constância ou na mina Boi Morto ou na própria funilaria sempre que Dr. Nilson Lacerda precisava de algum conserto em alguma de suas máquinas de escavação.
A procissão tomou o rumo da Avenida Coronel Cordeiro para cima como quem fosse subir e o povo enfileirado ia que ia indo.
Primeiro o mar de gente passou pela casa de dona dos Galeano, depois pela casa de dona Duzinha. Alcançou a casa de dona Doca e, em seguida, a casa dos Almeida e seguiu até passar pelo Cemitério Velho, do lado da venda de seu Antônio Cosme, já fazendo quase esquina com a ruazinha Jacob Uchôa. Em casa uma desses lugares havia um pequeno altar com a imagem da santinha afogada em um mar de flores. O padre parava e rezava uma ave-Maria e uma santa-Maria
A imagenzinha de Nossa Senhora da Conceição ia em um andor no jeep de Dr. Nilson Lacerda que, pela primeira vez, não estava na cidade. Corria um boato de que o doutor e Mr. Freak Lee tinham viajado para o Rio de Janeiro e de lá para a Austrália para tratarem de coisa grande. Coisa grande era o jeito do povo dizer que era coisa que envolvia muito dinheiro.
Coisa para mais de milhões, dizia-se ali nos encontros debaixo do pé de tamboril do mercado. E quando Pedro Sabiá perguntou a Sindô se os dois engenheiros haviam ido de jipe para a Austrália este soltou uma risada que chamou a atenção das pessoas mais próximas. O menino se encabulou e despejou no ouvido de Pedro Sabiá que não, o jipe tinha ficado em Teresina, numa garagem alugada. Eles tinham ido de avião mesmo.
Agora iam cavar não era mais para baixo, mas para os lados, em túneis. O australiano havia encontrado um veio dentro do morro da Boi Morto e era preciso vir maquinário pesado. A viagem deles era para trazer os investimentos. Coisa que nunca antes havia acontecido pelas bandas de Pedro II.
Quando foi bem na hora de a procissão dobar para passar na Rua da Cadeia, os acólitos apressaram o passo e perfilharam de modo que os que iam pelo lado direito da rua andaram mais rápido que os do lado esquerdo. Apesar das lindas vestes brancas deveriam estar sentindo calor, pois só agora começava a escorrer uma brisazinha que vinha desde lá da Serra dos Matões e prosseguia lá para as bandas do Pirapora.
Uma das meninas lourinhas teve até os cabelos de milho levantados em trunfa por um golpe de vento. Efetuada a manobra, a profissão enveredou pela Rua da Cadeia.
Quando foi a vez de Pedro dobrar a rua, saindo da Avenida Coronel Cordeiro e entrar para a Rua da Cadeia, seu coração se encheu de gastura. Quando fez a curva, lançou os olhos lá para o rumo dos quebras onde deveria estar por lá .... fulana de tal. Não só ela, mas todas as meninas. E com uma imagem da santinha rodeada de velas acesas e tudo. Apostava com quem quisesse que estavam às lágrimas porque não permitiam que elas acompanhassem a procissão. Pior, não podiam olhar nem de longe.
E pensar que tinha sido o filho mesmo de Nossa Senhora quem, há muito tempo, havia perdoado a Madalena e dito que quem não tivesse pecado, que atirasse a primeira pedra.
A procissão já estava quase toda na Rua da Cadeia. Assim que passou por debaixo dos galhos dos pés de manga Pedro Sabiá ainda ia pensando nas meninas dos quebras, tadinhas...Quando deu por si e sentiu um frio na barriga. Desde que fora detido, nunca mais tinha era passado na porta daquela maldita cadeia.
Não tinha culpa em nada. Tudo um mal entendido. O ladrão havia pulado o muro e, com medo de ser pego, tinha colocado a bolsa vazia dentro do bolso da calça dele. O filho da mãe tinha levado todo o dinheiro roubado e deixado só aquela merda de bolsa velha dentro do bolso dele.
Mas não teve nem te-rê-rê, nem tá-rá-rá: o delegado chegou com outros dois mequetrefes da polícia e baixou o sarrafo. Mas isso foi uma peia ... Meu Deus do céu, de tirar o coro. E era tabefe pra cá, tabefe pra lá que ele parecia mais com um judas de Semana Santa.
E ainda por cima levaram para a delegacia escornado. Não fosse a intervenção do advogado Dr. José Lourenço Mourão, a quem uma irmã de Pedro Sabiá foi procurar aos prantos, e ainda hoje ele estaria trancafiado na cadeia a pão e água e muita borracha de pneu de caminhão.
Mesmo assim, depois que acordara da pisa e da cachaçada, deparara-se com condições adversas e lamuriosas no chão sujo da cela da delegacia. O lugar era fétido mesmo e cheirava a fezes e urina. Naquele dia em que fora preso Pedro Sabiá ainda teve a sorte de não haver ninguém mais em sua companhia porque, então, a vergonha teria sido maior.
E não apenas a vergonha moral, mas mesmo a vergonha corpórea. O ato de ter que evacuar com outra pessoa ali como testemunha. Assim também quando vomitasse, como de fato o fizera, ter outra pessoa testemunhando as intimidades de seus intestinos.
Quando se emparelhou com o prédio da delegacia de Pedro II sequer olhou para os lados. De jeito nenhum. Mirou no guarda-chuva de uma senhora que ia com o marido e um filhinho segurando pela mão. A criança ia no meio dos dois, segurando na mão de um e na mão do outro e de vez em quando dava uns pulinhos, chutava pedrinhas.
Mais adiante, já na altura do estádio de futebol teve a curiosidade de olhar para trás e viu que a procissão estava bonita. Com o sol já posto, seus raios ganhavam alturas onde planavam nuvens cor de rosa, outras amareladas, havia até umas esverdeazuladas. Pedro II, como dizia Mr. Freak Lee, possuía um dos céus mais bonitos que ele já vira. E olhe que o homem conhecia meio mundo.
A procissão seguiu, agora em um passo mais apressado a pedido de padre Mário pelo megafone. O povo atendeu e o objetivo não era outro senão chegar à igreja se possível antes das quinze para as sete.
O estádio não era, sequer, murado, embora o prefeito vivesse prometendo. Os pés de eucalipto do lado de lá do campo pareciam enorme guardiães daquela imensidade. Algumas pessoas haviam subido no muro da caixa d’água para melhor apreciar a procissão. Eram quase todos garotos, mas havia alguns homens também.
As mulheres ficavam sobre as calçadas, ao longo da rua, com crianças de colo sendo amamentadas. Outras, maiores, forçadas pelas mães a se calarem durante a passagem da procissão. As maiorezinhas corriam na vã tentativa de chegarem na frente das outras e, assim, se aproximarem do andor com a santinha e tocar-lhe sob o olhar severo de algum acólito.
Finalmente a procissão dobrou a esquina da quitanda de seu Antônio Amaral e logo mais a torre da Igreja Matriz já podia ser vista dourando-se aos últimos raios do sol. Bandos de andorinhas em revoadas. Saíam de dentro da torre, devido o blém blém blém do sino e ficavam bailando por cima das copas dos pés de oitis da praça defronte da igreja.
Pedro Sabiá, apesar dos diabos das botas lhe apertarem os dedos, conseguiu terminar a procissão. Quando chegou na praça tratou logo de cortar a multidão conduzindo um cotoco de vela com uma para-lágrimas feito da caixa de papelão e o depositou ao pé do cruzeiro de madeira defronte da igreja, no patamar. Ao levantar-se e se colocando ereto o mais que pode, desenhou um sinal da cruz da fronte ao umbigo e de um ombro ao outro. Amém.
(*) Ilustração de J. Batista
ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. Autor de vários livros, dentre eles “Lendas de Pedro II’. Escreve aos sábados para o Portal P2.
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