Sábado, 18 de Julho de 2026
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Cultura Coluna do Ernâni

Umbanda por estas bandas: Manifestações da umbanda no município de Pedro II, PI

ERNÂNI GETIRANA (@ernanigetirana) é professor, poeta e escritor. É autor de inúmeros livros, dentre eles “Debaixo da Figueira do Meu Avô”. É membro da APLA, ALVAL, UBE-PI e do IHGPI.

18/07/2026 às 10h37
Por: Gustavo Mesquita
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Umbanda por estas bandas: Manifestações da umbanda no município de Pedro II, PI

 

Compreendemos que sendo “as religiões [...] ainda que sejam sistemas de práticas simbólicas e de crenças relativas ao mundo invisível dos deuses sobrenaturais, não se constituem senão como formas de expressão profundamente relacionadas à experiência social dos grupos que as praticam” (SILVA, 2005, p. 14-15), estudá-las é uma maneira de compreender de que forma vive o povo que as praticam. Com relação à Umbanda em Pedro II, podemos dividi-la historicamente em quatro momentos, que de forma muito sucinta podem ser assim pensados:

-Antes de 1950

Trata-se de um período bastante nebuloso acerca das manifestações de umbanda, se podemos dizer assim. Há relatos de pessoas que esporadicamente dirigiam-se ao Estado do Maranhão a fim de curarem-se de alguma doença obsessiva.

- Entre 1950 e 1960

Quando algumas dessas pessoas regressando do Maranhão passam a receber entidades espirituais e a realizar trabalhos (ditos trabalhos espíritas, trabalhos de mediunidade) em suas próprias residências ou às vezes em residências de outras pessoas, tudo sob o maior sigilo da polícia que tinha ordens expressas para intervir nessas sessões e prender os praticantes do que chamavam de magia negra.

 

-Entre 1960 - 1975

Período durante o qual pessoas “desenvolvidas” no Maranhão que já exerciam a Umbanda de forma disfarçada, sem documentos, como se dizia à época.

 

- De 1975 aos dias atuais

Fase iniciada com a construção do Centro Espírita de Umbanda Pedro de Alcântara (CEUPA), em 1975, quando todos os pais e mães de santo já tinham documentos, o CEUPA filiara-se à Federação Espírita do Piauí e o culto passou a ser praticado de forma pública.

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O CENTRO ESPÍRITA DE UMBANDA PEDRO DE ALCÂNTARA - CEUPA

Como é sabido as práticas dos cultos de origem afro em terras brasileiras nunca foi pacífica. Se ao negro eram negadas as condições mínimas de existência não seria exatamente no terreno do religioso que esta desigualdade de tratamento deixaria de existir. O quadro parece ter sido o mesmo em todo o país.

 

Foi então criada a “polícia de costumes” encarregada, dentre outras coisas, de observar a prática de cultos afro. Na verdade a polícia de costumes move uma campanha duríssima contra quaisquer manifestações desse tipo.

 

Na medida em que os primeiros umbandistas de Pedro II foram percebendo que a sua opção religiosa firmava-se cada vez com mais determinação, apesar ainda dos empecilhos gerados pela ignorância provinciana, notaram que era preciso consolidá-la tal opção. Na verdade, segundo pude colher ainda em conversas com os fiéis remanescentes, muitas das entidades espirituais recebidas pelos médiuns de então afirmavam categoricamente que chegaria o dia em que as sessões de Umbanda seriam realizadas a portas abertas.

 

Então a ideia da construção de um Centro Espírita ganhou peso. As primeiras reuniões sobre essa idéia foram em torno das figuras de Epifânio Pinto Getirana, Waldemar Freitas, Firmino Portela, Deusdete Horácio, Josefina Getirana, Zacarias e jovens ali 'desenvolvidos, como Raimundo de Sousa Alves ( Raimundo de Sousa Alves Raimundo Ana ) e uma séries de outras pessoas que cito em outro capítulo. Todos em torno das figuras do senhor Francisco Formiga e dona Sebastiana, sua esposa, que eram as duas figuras de referência para todo o grupo. Ambos eram médiuns com certa penetração na sociedade pedro-segundense.

 

Uma primeira sede provisória foi arranjada mediante aluguel de um quarto bastante grande de propriedade do senhor Eurico no bairro Cruzeiro. O senhor Eurico era também simpatizante do espiritismo. Isso aconteceu entre 1970 e 1975. As sessões espíritas aconteciam aos sábados a partir das 20 horas. Pode parecer que esse horário fosse cedo da noite, mas é preciso compreender que por essa época a luz elétrica de Pedro II era fornecida por uma usina movida a diesel.

Além disso os períodos em que as poucas luzes (apenas o centro da cidade era servido pela iluminação pública) permaneciam acesas ia das 18:00 às 21:30 horas. Além disso o bairro Cruzeiro por essa época era tido com distante do centro da cidade. Posteriormente as sessões passaram a ser realizadas aos domingos a partir das 16:00 horas até à madrugada.

 

Basicamente as sessões consistiam no seguinte: havia inicialmente uma série de orações a Deus, a Nossa Senhora e a uma série de santos onde seu Chico Formiga e dona Sebastiana à frente de vários outros médiuns devidamente paramentados com suas roupas sacerdotais oravam diante de um altar onde havia várias imagens de santos, jarros de flores e um crucifixo. No chão, vários pontos de umbanda eram riscados a giz e sobre estes, em pontos estratégicos, acendiam-se velas de várias cores, mas com predominância da branca

 

O terreno foi comprado pelo sr. Walter e doado à diretoria do que viria a ser o Centro Espírito de Umbanda Pedro de Alcântara no ano de 1975. O Sr. Walter assim procedeu em agradecimento à cura de sua mulher, Waldelívia Uchoa, por Francisco Formiga, futuro pai de santo do centro espírita. A construção teve início em 1972 e foi concluída em 1975, ano da inauguração.

 

Tomando da palavra o senhor Epifânio Getirana disse do imenso desafio enfrentado por todos os que ali estavam e que se doaram ao máximo par que aquele sonho se tornasse verdade. Que a partir daquele dia os “filhos de fé” estavam abrigados das intempéries dos homens e do tempo para poderem exercer seu direito religioso nos conformes da Lei. Outras figuras discursaram enfatizando o que já havia sido dito pelo primeiro orador

 

As primeiras sessões ainda ocorriam à noite, a partir das dez horas. Houve, no entanto, um período em que os trabalhos iniciavam-se ainda em plena tarde de domingo, por voltas das 16 horas e entrava madrugada a dentro.

 

O povo pedro-segundense, ao mesmo tempo nordestino e piauiense, portanto duplamente discriminado, ao que tudo indica, encontra na opala de uma forma mítica um motivo e uma razão plausível para orgulhar-se e, assim, construir sua auto-estima.

 

Estudos nesse sentido vêm sendo feitos e tratam de vários e múltiplos aspectos tais como a religiosidade popular, a marginalidade, a questão feminina, a questão infantil. Parece-nos, entretanto que os estudos acerca de manifestações de cultos afro, a Umbanda principalmente, são ainda em número reduzido se comparado a outros temas.

 

Quando há, geralmente se atêm a aspectos do exótico e do ritual em suas feições mais folclóricas.

Nesse sentido uma abordagem das narrativas que surgem nas cessões de Umbanda torna-se necessária como maneira de compreender-se melhor as possíveis influências que esses tempos de globalização têm na reformulação e nas possíveis respostas que os fiéis dão aos desafios que se lhes apresentam quer do ponto de vista da abordagem de novos públicos, quer da velocidade das novas tecnologias, quer por outro lado do resgate coletivo que essas narrativas certamente intentam fazer como forma de manter-se fiéis às suas origens, ressaltando aspectos de sua identidade, em confronto com a elite, é que

 

(...) a faca da identidade também é brandida pelo outro lado, maior e mais forte. Esse lado deseja que não se dê importância às diferenças, que a presença delas seja aceita como inevitável e permanente, embora insista que elas não são suficientes para impedir a fidelidade e uma totalidade mais ampla que está pronta a abraçar e a abrigar todas essas diferenças e todos os seus portadores (BAUMAN, 2005, p. 83).

 

O certo é que não se compreende verdadeiramente a questão da religiosidade no município de Pedro II se não de levar e conta a Umbanda e o Candomblé. Mas isso faz parte de uma pesquisa mais ampla que estou a realizar.

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Texto: (Fragmento de um artigo apresentando em 2015 na UESPI, Campus Torquato Neto, na Semana da Consciência Negra)

Desenhos: Ernâni

 

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Cultura com Profº Ernâni Getirana
Cultura com Profº Ernâni Getirana
Sobre Ernâni Getirana, professor, lecionou na UESPI e Faculdade Santo Agostinho, aposentado na Rede Estadual de Educação, Ecoescola Thomas a Kemps. Ainda na ativa na Rede Municipal de Educação de Pedro II. Formado em Letras pela UFPI, graduado em Meio Ambiente pela UnB, graduado em Educação pela UFRJ, mestre em Políticas Públicas pela UFPI. Membro das academias: Vale do Longá e Pedrossegundense de Letras e Artes. É poeta e escritor, autor de vários livros, dentre eles “Lendas da Cidade de Pedro II”.
Atualizado às 21h00 - Fonte: ClimaTempo
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